Mais do que fincar uma bandeira, o plano é 'viver' na Lua, diz cientista da Nasa sobre Artemis
Nicky Fox, responsável pela área científica da Nasa, participou da missão que há alguns anos "tocou" a atmosfera externa do Sol com uma sonda espacial. Agora, integra a equipe que busca permitir que seres humanos possam "viver" na Lua.
Em entrevista à AFP, a administradora associada da Diretoria de Missões Científicas da Nasa explica como a agência se prepara para alcançar esse objetivo.
A Nasa apresentou nesta semana os tripulantes da missão Artemis III, que em 2027 testará em órbita terrestre sistemas essenciais para o retorno dos americanos à Lua no ano seguinte.
Pergunta: O que vocês esperam da Artemis III?
Resposta: Queremos estar absolutamente preparados quando formos à Lua e prontos para fazer ciência no momento em que tocarmos a superfície lunar. Saber o que vamos levar na cápsula Orion, como monitoramos o clima espacial, o que podemos instalar na parte externa da cápsula. Testamos a cápsula Orion na Artemis II. Desta vez, trata-se de usar a cápsula para facilitar a ciência em futuras missões.
P: Existe risco para os humanos nessas missões. Como está o trabalho para reduzi-lo?
R: Na Artemis II, os tripulantes usavam no pulso algo parecido com uma pulseira de monitoramento de atividade, o que nos permitia acompanhar a saúde da equipe. Também levamos amostras de tecido para observar, por exemplo, os efeitos do espaço profundo no corpo humano. Na Artemis III será algo semelhante. Vamos monitorar a saúde da tripulação enquanto realizam diferentes atividades na cápsula Orion, enquanto nos preparamos para enviar astronautas à Lua, estabelecer uma presença permanente na base lunar e pensar no envio de humanos a Marte. Cada missão Artemis se apoia na anterior.
P: Como será a transição para a Artemis IV, na qual está previsto o pouso lunar?
R: Temos alguns experimentos que sabemos que serão realizados na Artemis IV ou na Artemis V. Ainda não decidimos qual irá em cada missão, mas um deles estudará a capacidade de cultivar plantas no regolito lunar (camada superficial da Lua), pensando em alcançar uma presença sustentada.
Outro experimento estudará os sismos lunares. Embora se imagine a Lua apenas como um grande bloco de rocha, ela é bastante ativa. Sempre que recebe o impacto de um micrometeorito, ela treme. A gravidade da Terra também faz a Lua vibrar levemente. Esses sismos podem ser detectados, o que nos ajuda a determinar onde estão os elementos voláteis e talvez seguir o caminho até a água.
P: O que mudou desde o programa Apollo, além da tecnologia?
R: Uma das novidades será ir ao polo sul da Lua, que é muito interessante. Há regiões permanentemente na sombra. Então, se existir água em forma de gelo, é ali que ela estará.
Trabalhamos bastante em áreas semelhantes às das missões Apollo. Mas este é um terreno único e diferente.
Além disso, nas missões Apollo, os astronautas passavam alguns dias na Lua e voltavam. Agora estamos realmente dando todos os passos necessários para construir uma base lunar onde os astronautas possam ter uma presença permanente, viver e trabalhar na Lua e realizar ciência.
A Lua é bastante singular. Tem radiação, tem microgravidade. Muitos dos nossos experimentos se beneficiam da microgravidade e não podem ser realizados aqui na Terra.
Esse é o plano lunar mencionado por Jared Isaacman (administrador da Nasa): os primeiros pousos que temos previstos com módulos robóticos, testando parte da infraestrutura, operando drones. Temos também o veículo de exploração VIPER, que estamos ansiosos para lançar, para começar a perfurar o solo e procurar água.
Não se trata apenas de uma viagem rápida. Não se trata apenas de fincar uma bandeira. Trata-se de viver e trabalhar na Lua.
W.Maile--HStB